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Greves do setor público pioram ainda mais a competitividade do Brasil

Carlos Rydlewski

Designa-se endemia qualquer doença espacialmente localizada que tenha caráter contínuo. Emprestado da medicina, esse termo se presta a definir com perfeição um problema crônico que há décadas fragiliza a competitividade da economia brasileira: a combalida infra-estrutura do país, que perde em eficiência e custo para todos os seus principais competidores diretos. Mas o que era ruim ficou pior. Uma greve dos auditores fiscais da Receita Federal, responsáveis pela liberação das mercadorias na alfândega, está deteriorando ainda mais a já emperrada logística do país (veja o quadro). Depois de um mês de paralisação, o estrago é monumental: o tempo para liberar a importação e a exportação de produtos dobrou; fábricas pararam por falta de componentes; 50 000 contêineres ficaram presos no Porto de Santos. Apenas na indústria de eletroeletrônicos, o prejuízo já chega a 1 bilhão de dólares. Outros grupos empresariais, como a indústria farmacêutica e a automobilística, além do agronegócio, também deixam escapar oportunidades e dinheiro com a greve, arcando com prejuízos ainda não mensuráveis. Não se trata de um movimento isolado. Desde 2005, as empresas brasileiras que dependem de importações e exportações enfrentaram 492 dias de greves e operações-padrão de funcionários públicos ligados ao comércio exterior. Foram dezesseis meses e meio de problemas. "O quadro é desolador. Num mundo globalizado, um país precisa oferecer facilidades, e não barreiras, para as relações comerciais entre empresas de diversas nações", diz José Augusto de Castro, da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB).

Entre suas exigências, os auditores fiscais querem aumentar o teto salarial de 13.400 reais para 19 000 reais. Isso é bem mais do que os 11 420 reais ganhos pelo presidente da República. Na sexta-feira passada, os grevistas discutiam se voltariam ao trabalho. No entanto, apenas para realizar o que chamam de "operação-padrão". Traduzindo: cumpririam o expediente somente para não ter os dias descontados, mas fariam o serviço mais lentamente. Greves como essa e a precária infra-estrutura explicam o desempenho sofrível do Brasil na troca de mercadorias com o exterior. No ano passado, as exportações do país cresceram 17%. Na China, aumentaram 26% e na Índia, 20%. O crescimento brasileiro foi embalado pela elevação do preço das commodities, e não pela eficiência logística. O Brasil tem o décimo maior produto interno bruto do mundo, mas responde por apenas 1,2% do comércio global e ocupa o 23º lugar entre os maiores exportadores. Entre os importadores, o resultado é pior: ocupa o 27º posto.

Porto de Santos: atraso na liberação de 50 000 contêineres

Inserida em 10/10/2008



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